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Com que faixa eu vou? - Adriana Silvestrini


Tudo o que você precisa saber quando for visitar um dojo

  Quem disser que nunca sentiu um "friozinho na barriga" diante de uma situação totalmente nova, pode atirar a primeira pedra. Isso acontece freqüentemente na nossa vida, por exemplo: o primeiro beijo, o primeiro emprego, a primeira viagem e por que não a primeira vez num tatame. Agora, imagine essa mesma sensação de "friozinho" dobrada! Pois é, isso pode acontecer quando visitamos outras academias. São dojos diferentes, senseis diferentes, colegas diferentes, treinos diferentes. Então como proceder diante de um treino num outro dojo que não o seu? É fácil. Agora o convidamos a ouvir os conselhos de quem visita, ministra e recebe aulas de Aikido nos mais diferentes tatames no mundo. Estamos falando do Sensei Makoto Nishida (shihan - 6° Dan), diretor técnico da Fepai. Anote as dicas e coloque-as em prática.

  Fepai News - Como ocorre o processo de treinamento do Aikido?

  Sensei Nishida - Desde a antigüidade aprendemos que há três etapas em todo o processo de treinamento em artes marciais. O primeiro é "Shu" (significa resguardar), o segundo "Ha" (quebrar) e o terceiro "Ri" (afastar). Em "Shu", deve-se praticar a base. Escolhe-se um professor de confiança e tenta-se aprender completamente suas técnicas. Nesta etapa, é melhor que não se receba instrução de outros professores. Pode ocorrer uma confusão de idéias pois cada professor possui uma base diferente. Em "Ha", após adquirir corretamente a base, tenta-se adaptar as técnicas com auxílio do seu professor. Nesta etapa, é interessante aprender com diversos professores e estudar técnicas novas, pois já será possível distinguir as diferenças entre as técnicas próprias e as técnicas de outros professores. O importante é manter as suas idéias voltadas ao estilo do seu professor e crescer em conjunto. Em "Ri", deve-se digerir tudo o que foi aprendido e criar um estilo de técnicas próprias e sua forma de treino. É uma maneira de se tomar um artista marcial autônomo. Em geral, pensa-se em "Shu" no período de 10 a 15 anos até atingir o 3° Dan. "Ha' de 8 a 10 anos nos 4° e 5° Dans. "Ri" após o 6° Dan, etapa onde o praticante é considerado mestre. É uma forma bastante rígida, que pode variar um pouco com a capacidade de cada praticante, mas que deve ser entendida como a forma correta de treinamento.

  Fepai News - Em que etapa do treinamento um aikidoísta pode visitar e treinar em uma outra academia (no Brasil e no mundo)? Por quê?

  Sensei Nishida - Na atualidade, devido à falta de tempo, o treinamento pode não ser tão rígido, mas sempre tome a ação após conversar e receber a autorização de seu professor. Até o 3° kyu é melhor concentrar-se apenas nos treinos de seu dojo. No 2° e 1° kyu, participe ativamente de treinos coletivos dentro da Federação como os yudanshakais para aperfeiçoar suas técnicas. Já nos 1° Dan e 2° Dan, há uma responsabilidade com um posto instrutivo dentro do dojo. Assim, faça se conhecer participando de diversos seminários. Não se deve esquecer que o objetivo principal são os treinos no próprio dojo, sendo os treinos extras uma forma de estudo e confraternização. Como dever de todo praticante, deve-se relatar as impressões e os acontecimentos dos treinos extras ao professor, já que os professores também são responsáveis pelas ações de cada praticante.

  Fepai News - Como um praticante de Aikido deve se apresentar num outro dojo?

  Sensei Nishida - 0 procedimento certo quando se vai a um outro dojo é se apresentar dizendo o dojo em que treina, o professor e a organização à qual pertence e por quanto tempo treina. Após isso, pergunte se é possível treinar naquele dojo. Caso o professor do dojo não conheça o seu professor, deve-se citar o professor de seu professor, pois quanto mais claro for a sua origem, os procedimentos serão mais fáceis. Se já houver uma relação de amizade entre os professores, você será muito bem recebido. Caso contrário, deve-se efetuar um esforço para deixar uma boa impressão, pois você será a ponte de ligação entre os dojos.

  Fepai News - O aikidoca/visitante que pertence ao 5°, 4°, 3°, 2° ou 1° Kyu deve usar a cor da faixa ao qual está graduado ou é melhor usar a faixa branca porque não faz parte daquele grupo?

  Sensei Nishida - Após deixar claro a sua graduação, siga os procedimentos do dojo visitado.

  Fepai News - E as mulheres, elas podem usar hakama em qualquer outra academia (que não seja a dela) desde que já pertença ao 5° kyu?

  Sensei Nishida - Neste caso também há diferenças entre dojos. Use de acordo com as regras do dojo.

  Fepai News - E os aikidoístas que possuem faixas pretas, devem sempre apresentar o certificado (passaporte) para comprovarem sua graduação?

  Sensei Nishida - É melhor mostrar sempre que possível. Há dojos onde o treino só será permitido com a apresentação do passaporte.

  Fepai News - Cada mestre tem seu estilo de ensinar e de aplicar os golpes, embora a essência do Aikido prevalece. Se o professor, ao qual a pessoa está visitando, apresentar um estilo e exercícios um pouco diferentes, como proceder?

  Sensei Nishida - Como regra, deve-se seguir as formas do professor. Apesar disso, caso a base do professor seja diferente, será impossível acompanhar exatamente os movimentos. Neste caso, deve-se tentar acompanhar na medida do possível. Na maioria dos casos, o professor não irá ver nenhum problema nisso. O importante é não impor o seu estilo em outros dojos. Deve-se tentar acompanhar as técnicas do dojo de forma humilde e mostrar o seu estilo de forma aberta apenas quando for requisitado.

  Fepai News - Muitos aikidocas viajam para outras cidades brasileiras e do exterior. Caso eles queiram treinar nesses lugares, como procurar uma boa academia de Aikido? É interessante procurar as academias filiadas a Aikikai do Japão? Por quê?

  Sensei Nishida - Antes de viajar, é interessante perguntar aos colegas ou aos professores que já foram ao lugar, apesar de que muitas vezes, não haverá alguém nessa posição. É possível pesquisar dojos em listas da Aikikai ou em revistas, mas a qualidade das técnicas ou o ambiente do mesmo só pode ser conhecido com uma visita. Desta forma, a única maneira de escolher o local certo é visitar os diversos dojos possíveis e escolher a que melhor se adapte à sua vontade. Existem variações mesmo entre os dojos filiados à Aikikai, mas esta pode ser uma boa dica para se achar bons dojos. É sempre melhor escolher após ver com os próprios olhos. Existem casos onde se pratica uma coisa bastante diferente do Aikido, usando-se apenas do nome. Caso haja dúvidas, é melhor apenas assistir à aula para não se machucar. Tomem cuidado para não se machucarem durante as viagens.

  Fepai News - Baseado na sua experiência, que visita e recebe sempre alunos de outras academias (inclusive estrangeiros), como um professor deve proceder para receber bem esses alunos/ visitantes ou temporários?

  Sensei Nishida - Caso haja uma visita em seu dojo, deve-se receber o visitante de forma amigável. Pergunta-se de forma respeitosa alguns dados pessoais como o professor, o dojo e a organização onde treina. Ainda mantendo a relação de amizade, deve-se observar o caráter e o grau técnico do visitante, sendo necessário selecionar os praticantes que irão treinar com ele, caso o visitante seja especialmente violento ou muito fraco. Dependendo da atitude do visitante, deve-se avisá-lo a praticar conforme o estilo do dojo. Em minhas experiências, a grande maioria dos visitantes é amigável, mas é importante observar bem o aluno pois alguns possuem uma postura competitiva. Como regra, não seja muito rígido com visitantes, aceitando suas técnicas e incentivando os seus pontos fortes. Crie urna relação de amizade.

  Fepai News - Na sua opinião, o que um praticante de Aikido nunca deve fazer ao chegar para treinar numa outra academia na condição de visitante?

  Sensei Nishida - O que nunca se deve fazer numa visita é não obedecer as regras do dojo ou impor seus métodos de treino. Nunca tente ensinar suas técnicas aos alunos do dojo sem a permissão do professor. Mesmo que você sinta que a sua técnica seja muito superior ao do professor do dojo visitado. Caso você possua uma técnica realmente superior, os resultados aparecem mesmo treinando de forma humilde e a aceitação será de forma natural. Esqueça as rivalidades inúteis e tente em primeiro lugar, fazer amigos no local visitado, promovendo um treino onde se possa suar de forma agradável junto com os outros aikidoístas.


FEPAI - Federação Paulista de Aikido - 2008 - Designer: kátia numakura