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Lembrança do Doshu Kisshomaru Ueshiba - Prof. Makoto Nishida (Diretor Técnico da Fepai)


  O segundo Doshu do Aikido, Kisshomaru Ueshiba Sensei, faleceu no dia 4 de janeiro de 1999, aos 77 anos. Nascido como filho primogênito do fundador do Aikido, Morihei Ueshiba Sensei, treinou o Aikido desde sua juventude, tornando-se chefe do dojo central em Tóquio após o fim da segunda grande guerra, onde mergulhou em um profundo estudo para o desenvolvimento do caminho. Após a morte do Kaiso, em 1969, assumiu o cargo de segundo Doshu, dedicando toda a sua vida para difundir o Aikido. Hoje, mais de 1,5 milhão de pessoas treinam o Aikido em todo o mundo. Percebe-se uma rápida expansão, mas isto é fruto dos esforços do Kisshomaru Ueshiba Sensei para desenvolver e reunir uma grande quantidade de mestres e instrutores com o intuito de desenvolver o Aikido.

  A primeira vez que encontrei pessoalmente com o Kisshomaru Sensei foi a vinte anos, em 1978. Neste ano, após 10 anos de imigração ao Brasil, havia voltado ao Japão junto com minha família por 6 meses, de abril a outubro. Era o meu segundo ano como shodan.

  Em junho, entrei como utideshi no Kobayashi Dojo em Tóquio e fui levado por Kobayashi Sensei a conhecer o Doshu no Hombu Dojo. O Doshu estava com uma visita marcada ao Brasil justamente nesse ano e acolheu-me de forma gentil, contando-me diversas coisas como a situação da Aikikai naquela época e lembranças do Kaiso. No final, com uma fisionomia mais severa, perguntou-me se havia treinado. Como havia participado do treino matinal naquele dia, respondi imediatamente que sim. Logo após, sua fisionomia se tornou suave e sorridente. Ele me ensinou através de sua fisionomia que a coisa mais importante é treinar. Naquela ocasião, treinei com Moriteru Ueshiba Sensei, na época ainda com seus vinte e poucos anos, e também com Yokota Sensei e Miyamoto Sensei, atuais shihans do departamento de instrução. Lembro-me como se fosse ontem quando quase desmaiei, tamanho o cansaço nos treinos.

  Após isso encontrei-o em 86, 89, 92 e 96, quando fui ao Hombu Dojo, sempre participando dos treinos matinais e recebendo seus ensinamentos. Todas as vezes, a primeira coisa que me perguntava era "Você já treinou?". Em 89, fui convidado à sua residência e, durante o almoço, após me dizer que eu deveria trabalhar ainda mais para o desenvolvimento correto do Aikido, presenteou-me com uma estatueta de bronze do Kaiso. Já em 90, quando da sua visita ao Brasil, fui convidado a participar do café da manhã, e quando disse que poderia desistir do Aikido por alguns problemas que tinha na época, disse-me inclinando-se sobre a mesa "Não desista de um caminho que você tenha se decidido a trilhar. Nunca mais diga que irá desistir do Aikido." e após isso, tomou ações que possibilitaram a minha continuidade no Aikido. Era uma pessoa bastante reclusa e de poucas palavras mas era uma pessoa que realmente se preocupava com todos nós. Quando o encontrei em 96, durante o congresso da Federação Internacional de Aikido, já estava doente, bastante fraco, e agora acabou partindo. Penso que tenha partido despreocupado pois seu filho, Moriteru Sensei, se tornou um excelente sucessor. Não pude participar de seu funeral mas desejo que o espírito do Doshu esteja sempre em paz na eternidade.

  Não me esqueço de seu rosto sorridente que olhava a mala com meu kimono.
  "Você já treinou?"


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